Atualizado terça-feira, 07/10/2014 |23:24

Cavalera Conspiracy e Krisium


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Os irmãos Cavalera

Show no Circo Voador em dia de semana é assim: começou na hora certa, muita gente não aproveita 100% da noite. Longe de ser culpa da casa. Não bastasse o trânsito caótico que toma conta da cidade de segunda a sexta-feira na hora do rush, as mudanças nos acessos à Lapa transformaram num inferno a vida de quem quer chegar à tradicional lona. Resultado: a combinação embreagem, acelerador e freio foi mais acionada do que o normal, em curtos intervalos de tempo, e entrada na casa foi aos primeiros acordes de “Ominous”, do Krisiun. Fica para uma próxima oportunidade conferir o trabalho do Confronto, mas a lacuna foi preenchida com louvor pelo trio gaúcho radicado em São Paulo.

Um ano depois da avassaladora apresentação no Palco Sunset do Rock in Rio, na dobradinha com o Destruction (confira a cobertura do festival na edição #178 da ROADIE CREW), os irmãos Alex Camargo (baixo e vocal), Moyses Kolesne (guitarra) e Max Kolesne (bateria) tomaram novamente o Rio de Janeiro de assalto. Independentemente de o Krisiun se encaixar muito bem no combo da noite, de você gostar ou não da banda e do estilo, é inegável que estamos diante de uma simbiose exemplar de talento e profissionalismo. Não à toa, um dos maiores nomes do Death Metal mundial.
O discurso em prol do Metal nacional, aliás, ganhou contornos sinceros no agradecimento a Max e Iggor Cavalera, por terem, com o Sepultura, levado o peso brasileiro a todos os continentes do Planeta. Muito justo, assim como o irrepreensível massacreimposto aos fãs durante uma hora. E, voltando algumas linhas acima, colocar o pé na pista do Circo Voador sob os riffs de “Ominous” deu aquela certeza de que não tinha como dar errado. Depois de abrir com uma música de dez anos atrás, presente em “Bloodshed”, o trio foi subindo a escada do tempo.

A espetacular “Combustion Inferno”, de “Southern Storm” (2008), trouxe a reboque “The Will To Potency”, de “The Great Execution” (2011), e a parte cadenciada da faixa de abertura do último álbum de inéditas é só um detalhe para mostrar como o Krisiun consegue trabalhar bem o instrumental além do mais bruto Death Metal. É a evolução que você já deve ter escutado falar e lido várias vezes, mas que se trata de fato consumado. Assim como a rasgação de seda para Max Kolesne – sim, porque é sempre impressionante ver essa cara tocando.

Um show para ser lembrado

Um show para ser lembrado

“Descending Abomination” e “Blood Of Lions” – sim, senhor, é Heavy Metal com toques de Death, e aí Moyses brilha mais do que nunca – foram outras do último trabalho que, ao vivo, mostram com absoluta clareza esses pormenores – tão cristalinos quanto os vocais de Alex Camargo, porque gutural com tamanha potência sem perder o pique em momento algum é para quem pode, não para quem quer. A apresentação chegou ao fim com “Black Force Domain”, a mais cascuda do repertório, a mais pedida pelo público, e o trio saiu de cena com um ‘stage diving’ de Alex para selar a carta do dever cumprido. Que show!

Enquanto o palco era preparado para o Cavalera Conspiracy, o Test religou os amplificadores do lado de fora da tenda – a dupla paulista havia tocado entre os shows do Confronto e do Krisiun. João Kombi (guitarra e vocal) e Barata (bateria) chamaram a atenção com seu híbrido de Grindcore e Death Metal. A mistura é tão singular que em alguns momentos dá para imaginar Mike Patton compondo música extrema visando a um novo disco do Mr. Bungle. Sem dúvida, um trabalho para ouvidos e mentes mais abertas, mas que pode despertar interesse nos mais curiosos. Vale checar o trabalho dos dois, que pegam a estrada numa Kombi para tocar onde derem uma oportunidade – e carregam até um gerador de energia com eles. Gente que faz.

Passados quase 18 anos dos dois shows antológicos do Sepultura no Imperator, com a banda no auge da popularidade após as loas e mais loas tecidas a “Roots”, enfim tive a chance de ver Max e Iggor juntos num mesmo palco novamente. E a despeito de o Cavalera Conspiracy ter tocado no mesmo Circo Voador em 2012, havia muita gente na mesma situação, o que deu ao show um tom de culto. Bastou Max entrar no palco para o público ficar hipnotizado. A diferença, no entanto, é que parte bastante considerável dos fãs presentes não aparentava ter visto o Sepultura com sua formação clássica. Empolgação elevada à enésima potência destes, um olhar mais atento daqueles que, como eu, assistiram a Max, Iggor, Andreas Kisser e Paulo Jr. em várias oportunidades.

Talvez por isso seja desconcertante atestar que Max nem de longe é mais o mesmo. Sim, o carisma está lá, intacto, mas não necessariamente acompanhado de uma insana presença de palco – e não dá para reclamar que ele nem sem preocupa mais em encostar a palheta nas cordas da guitarra. Nunca foi mesmo o seu forte. Talvez por isso seja incômodo ver que Iggor economiza no esforço para tocar – e você pode até chamar de preguiça, porque as viradas abreviadas, digamos assim, independem de ele estar usando um kit menor do que aqueles do passado. Mas vá lá: ainda senta a porrada sem dó nem piedade nas peles e pratos.

Este, no entanto, não é o resumo do show. Bem escorados por Tony Campos (baixo) e o ótimo Marc Rizzo (guitarra), os irmãos mostraram que o repertório do Cavalera Conspiracy tem força. “Inflikted”, que iniciou os trabalhos (e as rodas), é completamente funcional ao vivo, assim como as ótimas “Sanctuary” e “The Doom Of All Fires”. Coincidentemente, as três do disco de estreia, “Inflikted” (2008), que chegou mostrando um som mais cru, com doses bem dosadas de Punk Rock. Nem mesmo a participação de Richie Cavalera, enteado de Max, em “Black Ark” ajudou a diminuir tal sensação.
Ao contrário do que veio a seguir, em “Blunt Force Trauma” (2011), e “Warlord” (excelente!) e “Torture” soaram agradáveis com seus acentos Thrash Metal mais proeminentes.Duas do terceiro álbum, “Pandemonium”, a ser lançado no início de novembro, mostraram que o caminho a seguir é mesmo este. “Babylonian Pandemonium” e “Banzai Kamakazi” não levantaram tanto a plateia, bem mais participativa nas canções dos dois primeiros trabalhos – normal quando se está diante de alguma novidade. Assim, natural também que a empolgação atingisse o seu ápice nas velharias, e quando elas atendem por Sepultura o caos é formado.

O quarteto lançou mão de medleys, algo a se lamentar quando lembramos que estávamos diante de clássicos impagáveis. A reação na pista, no entanto, mostrava que ninguém de fato estava lamentado. O primeiro, com “Beneath The Remains”, “Desperate Cry” e “Troops Of Doom”jogou a pólvora, e o segundo, com “Arise” (com João Kombi, do Test) e “Dead Embryonic Cells”, acendeu o pavio.No fim das contas, fica a constatação de que Max e Iggor vão ter de conviver com o passado como se fosse o combustível para o Cavalera Conspiracy continue funcionando. E não creio que eles se importem, afinal, receber no palco a energia que emanou dos fãs em “Refuse/Resist” e “Territory” deve ser indescritível.

“Inner Self” e “Attitude” poderiam ter fechado a noite com louvor, mas todos sabiam que aquele não era o fim. A primeira metade de “Orgasmatron”, música do Motörhead que o Sepultura transformou num clássico próprio, foi uma boa surpresa, mas em uma hora e 40 minutos de show nada chegou perto do que foi “Roots Bloody Roots”. Não seria exagero dizer que foi algo completamente insano. Imagine quantas pessoas ali esperavam por isso fazia muito, mas muito tempo. Imagine quantas pessoas ali esperavam por isso pela primeira vez. É um legado que os irmãos Cavalera vão ter carregar. E com orgulho.

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